terça-feira, 14 de julho de 2015

RELATÓRIO ACADÊMICO FADIRE/PROX

Relatório Acadêmico Fadire/proex 2015   Educação física        
 Tema:O professor de educação física na sala de aula
           EXTRAIDO DA  ESCOLA ESTADUAL TIRADENTES- Rio Real-Ba
(Prof.Robério Oliveira)
         A escola Estadual Tiradentes em Rio Real Bahia situada na travessa Dr.Francisco Benjamim centro fundada em 1983 tendo na Gestão atual (2015) a professora Marly machado que é assessorada administrativamente por Ricardo Oliveira.
        O professor de Educação Física sabe que o desenvolvimento do educando dá-se a partir da união de vários fatores, tais como o neurológico, o ambiental, o psicológico, o nutricional, o afetivo e o cognitivo. Esses fatores são muito favorecidos pela estimulação, vivência e experimentação de suas condutas motoras.
        
          A escola Tiradentes tem uma quadra esportiva e bolas para cada modalidade em que o professor de educação física realiza suas aulas práticas, também conta com cinco salas de aula TV,DVD e um data show para utiliza-los em aulas teóricas.A principio seria confortável para o docente ganhar a confiança e a atenção dos seus alunos com os materiais já citados.

          Porém a realidade e os obstáculos que o professor enfrenta na sala de aula é desafiador,primeiro é que o educador tem que conscientizar os seus educandos da importância de sua disciplina(ed.física),mudando seu conceito de que a Educação física não é só jogar uma bola na quadra dividir duas equipes e deixa-los,(essa é uma grande realidade a ser mudada)e sim conscientiza-los de que não se trata apenas de uma disciplina que vai leva-los a uma modalidade esportiva e sim,a qualidade de vida,trazer  benefícios a saúde,integração de todos,prevenção a doenças coronárias,participação coletiva nas atividades dentre outros.
         
            Acredito que os maiores obstáculos que o educador enfrenta na sala de aula são: o desinteresse, falta de respeito,rebeldia,desobediência e etc,com isso exige do professor de educação física, profissionalismo,equilíbrio emocional,preparo,responsabilidade,acreditar na força de sua disciplina para mudar a vida de seus educandos e acima de tudo AMOR pelo que está fazendo.


Professor:José Robério Oliveira da Silva


A EDUCAÇÃO FÍSICA NA NOVA PROPOSTA CURRICULAR

A EDUCAÇÃO FÍSICA NA NOVA
PROPOSTA CURRICULAR DO ESTADO DE
SÃO PAULO
A Proposta Curricular do Estado de São
Paulo para o Ensino Fundamental (ciclo II - de 5ª
a 8ª séries) e Ensino Médio, foi apresentada aos
professores da rede estadual pública no início do
ano de 2008. A carta de apresentação da
Secretária da Educação do Estado de São Paulo,
Maria Helena Guimarães de Castro, inserida na
proposta, traz o seguinte texto:
Neste ano, colocamos em prática uma
nova Proposta Curricular, para atender ànecessidade de organização do ensino em
todo o Estado. A criação da Lei de
Diretrizes e Bases (LDB), que deu
autonomia às escolas para que definissem
seus próprios projetos pedagógicos, foi
um passo importante. Ao longo do tempo,
porém, essa tática descentralizada
mostrou-se ineficiente (SÃO PAULO,
2008c, p. 6).
Na Proposta do Estado de São Paulo, a
Educação Física insere-se na área de Linguagens,
Códigos e suas Tecnologias, juntamente com as
disciplinas: Língua Portuguesa, Língua
Estrangeira Modera (LEM) e Arte.
De acordo com a Proposta, a disciplina de
Educação Física deve contribuir, juntamente com
outras disciplinas, para que os alunos tenham uma
vivência que permita compreender as diferentes
linguagens e usá-las como meios de organização
da realidade. Assim:
A Educação Física compreende o sujeito
mergulhado em diferentes realidades
culturais, nas quais estão dissociados
corpo, movimento e intencionalidade. Ela
não se reduz mais ao condicionamento
físico e ao esporte, quando praticados de
maneira inconsciente ou mecânica. O
aluno de Ensino Fundamental e Médio
deve não só vivenciar, experimentar,
valorizar, apreciar e aproveitar os
benefícios advindos da cultura do
movimento, mas também perceber e
compreender os sentidos e significados
das suas diversas manifestações na
sociedade contemporânea. (SÃO
PAULO, 2008c, p. 38).
A proposta enfatiza a contextualização do
conhecimento, isto é, quando o conhecimento faz
sentido para o aluno, ou seja, se os dados, as
informações, as ideias e as teorias são
apresentadas considerando as condições de
produção, o tipo de sociedade em que são gerados
e recebidos, e sua relação com outros
conhecimentos.
A concepção da disciplina de Educação
Física, assumida na Proposta, revela uma
perspectiva cultural. Define-se como objeto de
estudo a cultura corporal e esportiva, ou cultura de
movimento, que engloba o esporte, a dança, a arte
marcial, a ginástica e os exercícios físicos.
Por cultura de movimento entende-se o
conjunto de significados/sentidos,
símbolos e códigos que se produzem e reproduzem
dinamicamente nos jogos,
esportes, danças e atividades rítmicas,
lutas, ginásticas etc., os quais
influenciam, delimitam, dinamizam e/ou
constrangem o Se movimentar dos
sujeitos, base de nosso diálogo expressivo
com o mundo e com os outros (SÃO
PAULO, 2008c, p. 43).
Na Proposta, percebe-se a atenção ao
crescente aumento da divulgação das informações
e dos produtos de consumo (mesmo que apenas
como imagens) ao grande público, por intermédio
de jornais, revistas, rádio, televisão e internet, e os
riscos que essa divulgação propõe, como por
exemplo, um padrão de beleza corporal a ser
alcançado por todos. Discute, ainda, a falta da
prática sistemática de esportes e exercícios
gerados pelas novas condições socioeconômicas
que favorecem o sedentarismo e o recolhimento
aos espaços privados (condomínios) ou
semiprivados (shopping centers).
Na Proposta Curricular do Estado de São
Paulo (2008), verifica-se, também, uma Educação
Física que considera os adolescentes como
integrantes de certas manifestações da cultura de
movimento (hip-hop, capoeira, musculação, skate
etc). Assim, a prática corporal, promovida pelos
professores da disciplina os quais desconsideram
tais manifestações, deve ser repensada: “A
transformação a que nos referimos não pretende
negar a tradição da área construída pelos
professores, mas ampliar e qualificar suas
possibilidades de atuação” (SÃO PAULO, 2008c,
p. 41).
A expressão “se movimentar” é utilizada na
Proposta “para destacar o fato de que se trata de
sujeitos que se movimentam em contextos
concretos, com significações e intencionalidades”
(SÃO PAULO, 2008c, p. 42-43). A expressão é
entendida da seguinte forma:
O “Se”, propositadamente colocado antes
do verbo, enfatiza o fato de que o sujeito
(aluno) é autor dos próprios movimentos,
que estão carregados de suas emoções,
desejos e possibilidades, não resultando
apenas de referências externas, como as
técnicas esportivas, por exemplo.
Estamos nos referindo ao movimento
próprio de cada aluno. Por isso, um aluno
pode gostar de movimentar-se em certo
contexto, mas não em outro, embora os
movimentos/gestos possam ser os
mesmos (por exemplo, dançar) (SÃO
PAULO, 2008c, p. 43).
Assim, entende-se que a Proposta se sustenta
no aprendizado das manifestações, dos
significados/sentidos, dos fundamentos e critérios
da cultura corporal de movimento. Defende,
também, o trabalho com grandes eixos de
conteúdos, resumidos e expressos no jogo, no
esporte, na ginástica, na luta e na atividade
rítmica; assim como os eixos temáticos: corpo,
saúde e beleza, contemporaneidade, mídias e lazer
e trabalho. E, por fim, acredita na
contextualização do conhecimento, isto é, dar
sentido ao conhecimento, relacionando os dados,
informações, ideias e teorias com as condições de
produção, com o tipo de sociedade, e a relação
com outros conhecimentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Percebe-se que a Educação Física sofreu
mudanças significativas ao longo da história, e
que existe empenho no sentido das discussões
teóricas e conceituais chegarem até a prática
pedagógica dos professores. Discutir e implantar
novas idéias, conceitos, propostas como a inclusão
da Educação Física na área de Linguagens,
Códigos e suas Tecnologias, juntamente com as
disciplinas: Língua Portuguesa, Língua
Estrangeira Modera (LEM) e Arte, bem como
entender a disciplina como meio para que os
alunos tenham uma vivência que permita
compreender as diferentes linguagens e usá-las
como meios de organização da realidade, não
deve ficar alheia a discussão, a reflexão, a um
processo baseado na formação dos atuais docentes
e dos futuros professores.
Uma nova proposta pensada como um
“elixir” que solucionará todas as dificuldades e
lacunas do processo de ensino-aprendizagem
presente na prática docente, a nosso ver, está
fadada ao fracasso, já que existe a necessidade de
interação entre as novas ideias com a prática,
considerar as experiências dos docentes, bem
como todo o conhecimento até então produzido.
Descartar o que há de bom na prática pedagógica
e simplesmente apresentar um novo modelo parece mais um discurso político do que uma ação
que visa mudanças reais na prática pedagógica.
Nesta perspectiva duas posturas fundamentais, na
figura de um professor ideal, seriam necessárias,
isto é, a prática reflexiva e a implicação crítica. De
acordo com Perrenoud (2002), a prática reflexiva
permite ao professor, “nas sociedades em
transformações, a capacidade de inovar, negociar
e regular a prática” (p. 15); já a implicação crítica
possibilita o docente o envolvimento no debate
político sobre a educação, mas não apenas aos
desafios corporativos ou sindicais, como “também
às finalidades e aos programas escolares, à
democratização da cultura, à gestão do sistema
educacional, ao lugar dos usuários etc” (p. 15).
Assim, a implantação de uma proposta não
deveria ficar alheia a um dos critérios discutidos
por Perrenoud (2002, p. 16) na formação dos
professores: “Uma transposição didática baseada
na análise das práticas e em suas transformações”.
Este critério chama atenção para o que acontece
na formação inicial e também nas reformas
escolares. Sobre a formação inicial:
Isso se complica ainda mais pelo fato de
que vários cursos de formação inicial
estão baseados mais em uma visão
prescritiva da profissão do que em uma
análise precisa de sua realidade.
Naturalmente, nada nos obriga a adaptar a
formação inicial à realidade atual de uma
profissão. A formação não tem nenhum
motivo para abordar apenas a reprodução,
pois deve antecipar as transformações.
Logo, para fazer as práticas evoluírem, é
importante descrever as condições do
trabalho real dos professores. Essa é a
base de toda estratégia de inovação
(PERRENOUD, 2002, p. 17)
Sobre as reformas escolares:
As reformas escolares fracassam, os
novos programas não são aplicados, belas
idéias como os métodos ativos, o
construtivismo, a avaliação formativa ou
a pedagogia diferenciada são pregadas,
porém nunca praticadas. Por quê?
Precisamente porque, na área da
educação, não se mede o suficiente o
desvio astronômico entre o que é
prescrito e o que é viável nas condições
efetivas do trabalho docente
(PERRENOUD, 2002, p. 17).
Dessa forma, é necessário discutir a produção
na área da Educação Física e os esforços no
sentido de implantá-las na prática pedagógica dos
professores, sem deixar de lado a pesquisa sobre
as práticas, e oferecer uma visão realista dos
problemas que atingem a escola todos os dias, já
que não é mais suficiente apenas dominar os
saberes para transmiti-los, mas como lidar com a
resistência dos alunos em aprender, com a
improvisação de materiais, com novos conteúdos
que vão além do vôlei, do basquete, do futsal, por
exemplo, o Beisebol, o Rugby, as Danças
Regionais, a Capoeira conteúdos presentes na
Proposta Curricular do Estado de São Paulo. Por
isso, é urgente o encadeamento entre o que se
pensa fazer, a realidade prática e o possível, ou
seja, respeitar a distância entre a realidade e a
formação inicial e continuada dos professores.
REFERÊNCIAS
BARBANTI, V. J. Dicionário de educação física e do
esporte. São Paulo: Manole, 1994.
BETTI, M. Ensino de primeiro e segundo graus: educação
física para quê? Revista Brasileira de Ciências do Esporte,
Maringá, v. 13, n. 2, p. 282-287, jan. 1992.
______.Mídias: aliadas ou inimigas da educação física
escolar. Revista Motriz, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 125-129,
jul./dez., 2001.
______. Educação física como prática científica e prática
pedagógica: reflexões à luz da filosofia da ciência. Revista
Brasileira de Educação Física, São Paulo, v. 19, n. 3, p.
183-197, jul./set., 2005a.
______. Sobre teoria e prática: manifesto pela redescoberta
da educação física. Revista Digital – Lecturas: EF y
Deportes, Buenos Aires, a. 10, n. 90, dez. 2005b. Disponível
em: <http://www.efdeportes.com/efd91/ef.htm>. Acesso em:
21 jan. 2008.
______. (Org.) Educação física e mídia: novos olhares,
outras práticas. São Paulo: Hucitec, 2006.
BETTI, M.; ZULIANI, L. R. Educação Física escolar: uma
proposta de diretrizes pedagógicas. Revista Mackenzie de
Educação Física e Esporte, Bauru, v. 1, n. 1, p. 73-81, 2002.
Disponível em:
<http://www.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/CCBS/Curs
os/Educacao_Fisica/REMEFE-1-1-2002/art6_edfis1n1.pdf>.
Acesso em: 12 out. 2007.
BRACHT, V. A constituição das teorias pedagógicas da
educação física. Cadernos Cedes, Espírito Santo, v. 19, n.
48, p. 69-88, ago. 1999. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S01013262199900010
0005&script=sci_arttext&tlng=pt+>. Acesso em: 29 mar.
2008.
BROTTO, F. O. Jogos cooperativos: se o importante é
competir, o fundamental é cooperar. São Paulo: Cepeusp,
1995.

A EDUCAÇÃO FÍSICA NO CONTEXTO ESCOLAR

A educação física no contexto escolar: trajetória e proposições pedagógicas
Rev. Teoria e Prática da Educação, v. 13, n. 2, p. 123-130, maio./ago. 2010
124
aprendizagem presente na prática docente, que
exige a interação entre as novas ideias com a
prática, considerar as experiências dos docentes,
bem como todo o conhecimento até então
produzido. Descartar o que há de bom na prática
pedagógica e simplesmente apresentar um novo
modelo parece mais um discurso político do que
uma ação que visa mudanças reais na prática
pedagógica. Nesta perspectiva duas posturas
fundamentais, na figura de um professor ideal,
seriam necessárias, isto é, a prática reflexiva e a
implicação crítica.
O caminho percorrido pela Educação Física
Segundo Bracht (1999, p. 74), “a constituição
da educação física [...] escolar emergente dos
séculos XVIII e XIX, foi fortemente influenciada
pela instituição militar e pela medicina”. A
influência do militarismo e da medicina na
Educação Física contribuiu para uma
aprendizagem mecânica e sem reflexão. Neste
contexto a disciplina era utilizada na incorporação
de normas e valores. Por meio da educação do
corpo (o autor enfatiza a separação de corpo e
intelecto, e a valorização deste), isto é, hábitos
saudáveis numa perspectiva nacionalista, não
apenas terapêutica, as formas culturais eram
instrumentalizadas.
Para o autor, esses movimentos são
signatários do entendimento de que a educação da
vontade e do caráter pode ser conseguida de forma
mais eficiente com base em uma ação sobre o
corpóreo do que sobre o intelecto. Normas e
valores são literalmente “incorporados” pela
vivência corporal concreta. A obediência aos
superiores precisa ser vivenciada corporalmente
para ser conseguida; é algo mais relacionado ao
plano do sensível do que do intelecto.
A Educação Física no Brasil, nas primeiras
décadas do século XX, era entendida como
atividade exclusivamente prática, já que atuavam
nas escolas os instrutores pertencentes às
instituições militares.
Destaca-se que, até essa época, os
profissionais de Educação Física que
atuavam nas escolas eram os instrutores
formados pelas instituições militares.
Somente em 1939 foi criada a primeira
escola civil de formação de professores
de Educação Física (Brasil, Decreto-lei nº
1212, de 17 de abril de 1939) (SOARES
et al., 1992, p. 53).
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a
Educação Física na escola passa a conviver com
novas tendências:
Após a Segunda Guerra Mundial, que
coincide com o fim da ditadura do Estado
Novo no Brasil, surgem outras tendências
disputando a supremacia no interior da
instituição escolar. Destaca-se o Método
Natural Austríaco desenvolvido por
Gaulhofer e Streicher e o Método da
Educação Física Desportiva
Generalizada, divulgado no Brasil por
Auguste Listello. Predomina nesse último
a influência do esporte que, no período do
pós-guerra, apresenta um grande
desenvolvimento [...] (SOARES et al.,
1992, p. 53-54).
A supremacia dessas tendências influencia
sobremaneira o esporte no âmbito escolar,
tornando a Educação Física subordinada aos
códigos da instituição esportiva, prevalecendo a
competição, o rendimento, a racionalização de
meios e as técnicas. Esta influência estabelece
novas relações, passando de professor-instrutor e
aluno-recruta – quando influenciado pela
instituição militar – para a de professor-treinador
e aluno-atleta (SOARES et al., 1992).
De maneira similar, Freire (2007, p. 115), ao
discutir os métodos de educação utilizados, nos
quais as crianças são “confinadas” e a falta de
movimento parece ser necessária para a
aprendizagem, relata que “nenhuma Educação
Física foi tão eficiente como aquela praticada
pelos nazistas durante a ascensão de Hitler, nem
tão bem-recebida pelos ‘pensadores’ brasileiros da
Educação Física da época como ela o foi”. Nesse
período a Educação Física foi usada como
dominação, na qual o corpo acaba sendo como o
poder (imóvel, rígido, conservador).
Segundo o autor, a Educação Física alienante
exige que o corpo conforme-se aos métodos de
controle, já que dessa forma as ideias podem ser
controladas, pois o “fascismo, que nunca
desapareceu, sabe que idéias e ações corporais são
a mesma coisa e, se quiser controlar as idéias,
basta controlar os corpos” (FREIRE, 2007, p.
114).

A especificidade do ensino Ed.física do 6ºao9º ano

 


A especificidade do ensino da Educação Física
no ensino fundamental do 6º ao 9º ano
    O objetivo deste texto é problematizar a especificidade do ensino da Educação Física para adolescentes, delimitando a abrangência do estudo no Ensino Fundamental, em especial do 6º ao 9º ano deste seguimento escolar.
    Historicamente, a Educação Física foi vista como uma disciplina voltada apenas para o desenvolvimento físico dos seus alunos, ao compreender o educando apenas enquanto um ser biológico, desprovido, muitas das vezes, de cultura, afetividade e das demais dimensões que formam o ser humano.
    Com isso, os conteúdos que compunham as aulas de Educação Física, em especial para adolescentes e jovens, era o exercício físico, o fortalecimento do corpo e a prática esportiva voltada para a seleção de atletas. Esse fato negligenciava a participação de alunos com deficiência e alunos que não se enquadravam no “modelo” de “corpo” desportista: corpos fortes, com habilidade e disciplinados (FOUCAULT, 1987).
    É com base nessa dinâmica que se prolongou o entendimento da Educação Física pelo Século XIX e grande parte do Século XX. Porém, em meados da década de 1980, houve um maior questionamento sobre a função da Educação Física na escola, ao se perguntar, por exemplo: O que é Educação Física? Quais os conteúdos que compõe a Educação Física? Como se ensina a Educação Física?
    Tomando respaldo as reflexões de Coletivo de Autores (1992), advoga-se que a Educação Física é entendida enquanto Cultura Corporal, que se trata das várias práticas corporais que o ser humano construiu no seu processo de viver, como o esporte, o jogo, a dança, a ginásticas, a luta, as práticas de lazer.
    Por sua vez, Moreira (1990) afirma que o intuito a Educação Física escolar é proporcionar para o aluno a superação de seus limites corporais, possibilitando com que o educando possa transcender as possibilidades do seu corpo, e por meio das atividades corporais, poder humanizar-se cada vez mais.
    Embora diferentes em suas compreensões, esses autores dialogam no sentido de buscar uma Educação Física que possa reconstruir a sua forma de ser ensinada, sobretudo no conteúdo esporte. Assim, é interessante perguntar: como a Educação Física tem sido ensinada?
A Educação Física no Ensino Fundamental: questões para superação da prática pedagógica esportivista
    A prática esportiva, segundo Moreira e Simões (2010), caracteriza-se como um fenômeno complexo, o qual necessita ser entendido e vivenciado pelo ser humano, na busca de sua autonomia, do pensamento crítico e da emancipação.
    É nesse sentido que os dizeres dos referidos autores dialogam com a concepção apresentada por Kunz (1991, 1994), autor esse que tem contribuído sobremaneira com um salto qualitativo na compreensão do esporte. Esse autor revela que historicamente, o esporte tem sido ensinado sob a ótica do alto rendimento, da busca a qualquer preço pelo Record e da minimização dos tempos.
    Kunz (1994) afirma que a prática esportiva se sustenta a partir dos seguintes princípios básicos:
  • Princípio da sobrepujança: ideia de que qualquer um, qualquer equipe, tem possibilidade de vencer em confrontos esportivos. Busca-se a vitória – o sobrepujar o adversário.
  • Princípios das comparações objetivas: Chances iguais para todos nas disputas esportivas. Padronização dos espaços, dos locais de disputa.
  • Tendência de selecionamento: Selecionam-se os alunos pelas suas habilidades/destrezas esportivas, biotipo físico, sexo e idade.
  • Tendência da especialização: Para se obter uma boa técnica esportiva e um alto grau de rendimento, reduz-se ao máximo o repertório de ofertas em relação às modalidades esportivas.
  • Tendência da instrumentalização: Diz respeito aos acréscimos na performance, as regras e aos métodos que levam ao sucesso esportivo ou melhor rendimento. O ensino do esporte se centra na repetição exaustiva e descontextualizada da técnica.
    Ao se encontrar respaldo nessas argumentações, evidencia-se uma perspectiva que segue o viés da exclusão social, da concorrência, da manipulação do corpo para produzir/criar seus movimentos, ou seja, da reprodução dos valores que alicerçam a concepção capitalista no mundo.
    Nessa linha de raciocínio, é importante ressaltar, como ensinam Darido e Rangel (2005), que o trato pedagógico esportivo, sobretudo na área da Educação Física, foi sempre dirigido aos alunos com mais habilidades, ficando, portanto, aos alunos com menos habilidades, a exclusão e o consumo do esporte apenas como espectadores.
    Por sua vez, as críticas de Assis (2010, p. 16) apontam em duas direções: a primeira afirma que existe uma exclusividade de algumas modalidades esportivas que são ensinadas na escola, como o Futebol; e a segunda diz respeito a função do esporte na escola, o qual se fundamenta no entendimento de que o esporte que ocorre dentro desta instituição está a serviço da revelação de atletas, assumindo os códigos, os sentidos e valores do alto rendimento.
    Ao dialogar com essa análise, Moreira e Simões (2010) ressaltam que a utilização da técnica presente na prática esportiva tem um fim em si mesma, com um sentido mecânico de repetições intermináveis na busca de um movimento perfeito. Com isso, os autores realizam a seguinte pergunta: O problema é da técnica? Evidentemente não, o que se questiona é o valor atribuído a ela. É isso que precisa ser alterado.
    Não se trata de negar o esporte de competição, mas é necessário, como afirmam Kunz e Santos (2009), pensar no esporte educacional, o qual deve ser voltado para o entendimento, para a vivência e para a apreciação das pessoas não são atletas e que não possuem excepcionais habilidades motoras.
    De modo a modificar esse entendimento, compreende-se que o esporte caracteriza-se como um patrimônio histórico-cultural da humanidade, o qual precisa ser divulgado e praticado pelas pessoas, em suas diferentes faixas etárias e condições socioeconômicas. Porém, o que se evidencia na atualidade é uma prática esportiva cada vez mais restrita às pessoas de poder aquisitivo, restando à maioria da população um consumo apenas de espectador do mesmo.
    Possibilidades de mudança se anunciam quando compreendemos a necessidade de resgatar os valores que verdadeiramente socializam, privilegiam o coletivo sobre o individual, garantem a solidariedade e o respeito ao ser humano, levando-o a compreensão de que o jogo se faz com o outro e não contra o outro (COLETIVO DE AUTORES, 1992).
    Além do exposto, é necessário frisar, como indicam os autores supracitados, que o ensino do esporte deve possibilitar o seu entendimento como uma prática social historicamente situada, que pode contribuir para uma compreensão crítica e transformadora da realidade, pautada também no princípio da diversidade de práticas esportivas oferecidas a população.
    Ao se levar em consideração essa necessidade de se modificar o trato pedagógico da Educação Física, é necessário que possamos realizar o seguinte questionamento: como implementar uma intervenção didático-pedagógica que possa (re)orientar o ensino da Educação Física na escola?
Princípios para a organização didático-pedagógica da Educação Física escolar
    De acordo com Coletivo de Autores (1992) a abordagem metodológica da Educação Física precisa ter como pilar três principais elementos: 1) Conhecimento de que trata a disciplina; 2) O tempo pedagogicamente necessário para o processo de apropriação do conhecimento; 3) Os procedimentos didático-metodológicos para ensiná-lo.
    O primeiro conhecimento se refere à necessidade do professor ter clareza e o domínio do conhecimento objeto de estudo da Educação Física, objeto este que para os autores é a Cultura Corporal. Os autores a definem como as “formas de atividades, particularmente corporais, como jogo, esporte, ginástica, dança ou outras, que consistirão seu conteúdo. O estudo desse conhecimento visa apreender a expressão corporal como linguagem” (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 62).
    Ensinam-nos que os temas da cultura corporal, tratados na escola, expressam um sentido/significado no qual se interpenetram, dialeticamente, a intencionalidade/objetivos do ser humano e as intenções/objetivos da sociedade.
    Um exemplo disso pode estar no ato de jogar Basquetebol. O professor enxerga um evento mais do o lúdico, uma luta entre duas equipes em que a mais forte será a vitoriosa. O sentido empreendido ao jogo é o de um trabalho a ser executado com perfeição.
    Já o aluno, compreende o jogo como um meio para atingir o seu objetivo, que pode ser prazer, auto-estima, participação, lazer, atribuindo, dessa forma, um sentido/significado ao jogo mais próximo de sua vida.
    Por isso é fundamental que o professor possa dominar o objeto/conhecimento de que trata a Educação Física, pois esse domínio o auxiliará a construir uma intervenção pedagógica mais próxima de uma forma lúdica para o escolar.
    O segundo ponto diz respeito ao tempo pedagogicamente necessário para que o aluno possa assimilar o conhecimento trabalhado. Esse implica em compreender os conteúdos e a distribuição do tempo necessário para a sua assimilação.
    Nesse sentido, os autores exemplificam da seguinte maneira:
    Saltar representa a atividade historicamente formada e culturalmente desenvolvida de ultrapassar obstáculos, seja em altura ou em extensão/distancia. No primeiro Ciclo do ensino fundamental (Ed. Infantil até a Terceira série), o aluno já conhece e a executa a partir de uma imagem da ação tomada do seu cotidiano. A ênfase pedagógica deve incidir na solução do problema: como desprender-se da ação da gravidade e cair sem machucar-se? Das respostas encontradas pelos alunos, surgirão as primeiras referências comuns à atividade “saltar”. No decorrer dos ciclos seguintes, o aluno ampliará seu domínio sobre formas de saltar. É interessante destacar que uma habilidade corporal envolve, simultaneamente, domínio de conhecimento, de hábitos mentais e habilidades técnicas (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 65).
    Por fim, o último momento procura, ao fugir de praticismo de apontar receitas, apresentar pistas de “como fazer” nas aulas de Educação Física. Sem dúvida, esse pode ser apontado como a etapa mais complexa do trado pedagógico docente, pois pensar em um novo modelo de ensinar exige uma nova postura de método, uma busca de uma verdadeira práxis – articulação teoria e prática.
    A organização didático-metodológica dos conteúdos ensinados pelos professores precisa problematizar as seguintes questões: quem são os alunos que tenho? Quais os recursos didáticos que tenho? Que tempo e espaço (local) pedagógico disponho para o ensino da Educação Física?
    É de suma importância que o professor possa ter a clara compreensão de que não se trata de negar a aprendizagem dos fundamentos técnicos dos esportes, mas sim, entender que estes fazem parte de um conjunto de conhecimentos que estão ligados ao ensino da Educação Física.
    Darido e Rangel (2005) ensinam que o programa da disciplina Educação Física precisa ser construído com base em três dimensões, que são: dimensão procedimental, atitudinal e conceitual.
    A primeira corresponde ao saber fazer, as técnicas que os alunos devem se apropriar dos conteúdos das aulas; a segunda refere-se as atitudes e valores humanos e sociais que os conhecimentos ensinados nas aulas de Educação Física devem transmitir aos alunos e a dimensão conceitual se trata do domínio dos conceitos discutidos ao longo da disciplina.
    Ao tomarmos o Futebol como exemplo, como o professor poderia organizar esse conhecimento dialogando com as três dimensões de ensino propostas pelas autoras?: No que concerne à dimensão procedimental, o aluno deve conhecer os vários fundamentos do esporte, suas regras e dinâmica de jogo (ataque e defesa); na dimensão atitudinal o professor pode trabalhar a relação cooperação/competição, enfatizando que no esporte coletivo nós jogamos com outras pessoas e não contra outras pessoas. Por fim, na dimensão dos conceitos, é importante que o aluno aprenda a história do Futebol, a relação de racismo que o demarcou no início do Século XX no Brasil, a relação de midiatização que está presente no Futebol, a mercadorização dos atletas e o lucro dos empresários de Futebol também são temas que podem ser discutidos com os alunos nesse seguimento escolar.
    Com o intuito de auxiliar os professores a organizar os conteúdos nas aulas de Educação Física, Coletivo de Autores (1992) propõe algumas características que as atividades podem assumir no desenvolver das atividades pedagógicas do professor.
    É válido ressaltar que os alunos que estudam nessas séries possuem mais consciência de sua atividade mental, fato que os possibilita confrontar os dados da realidade com as representações de seu pensamento sobre eles. Ou seja, o aluno amplia as referências conceituais do seu pensamento, tomando consciência de sua atividade teórica (COLETIVO DE AUTORES, 1992).
    Os autores apontam as seguintes características para as atividades nas aulas:
  1. Jogos cujo conteúdo implique jogar tecnicamente e empregar o pensamento tático;
  2. Jogos cujo conteúdo desenvolva a capacidade dos alunos de criar seus próprios jogos e suas próprias regras;
  3. Jogos cujo conteúdo implique a organização técnico-tática e o julgamento de valores de arbitragem;
  4. Jogos cujo conteúdo implique a decisão de níveis de sucesso.
    Portanto, com esse bloco de temáticas, espera-se que o aluno possa identificar/associar o tipo de vivência que ele realiza com o conteúdo do qual faz parte essa vivência e, sobretudo, ampliar a sua compreensão sobre os elementos que compõe o Movimento Humano.
O exemplo do Atletismo
    O Atletismo inclui as práticas do correr, saltar e arremessar/lançar. Essas práticas foram criadas pelo ser humano. O seu desenvolvimento e evolução são consequência da elaboração cultural. Nesse sentido, o significado dos seus fundamentos encontra-se na solução que deve ser dada ao problema de maximizar a velocidade (correr), desprender-se da ação da gravidade (saltar) e jogar distante (COLETIVO DE AUTORES, 1992).
    As provas que compõe o atletismo são:
  • Corridas
    • De resistência;
    • De Velocidade
    • De revezamento
  • Saltos
    • No sentido Horizontal: extensão e triplo
    • No sentido vertical: altura
  • Arremessos
    • De peso
  • Lançamentos
    • Implementos – dardo, disco, martelo
    A partir desses conteúdos que compõe o atletismo, uma aula de atletismo poderia ser elaborada da seguinte forma:
Temática da aula: corridas
1º Prática Social Inicial. Identificar o conhecimento prévio que o aluno já possui sobre o atletismo, em especial das corridas;
  1. Vocês conhecem o atletismo?
  2. Para vocês o que é corrida?
  3. Vocês conhecem os tipos de corrida do atletismo?
2º Problematização. Apresentar a temática da aula, trazendo algumas informações do tema em debate. Sobretudo, trata-se de fornecer as respostas de forma sistematizada das perguntas anteriormente feitas para os alunos. No caso desta aula, o professor deve explicar o que é atletismo (modalidade esportiva) bem como os diferentes tipos de corrida que são realizadas neste esporte.
3º Instrumentalização. Atividades realizadas para apropriação do conhecimento.
  1. Corridas com obstáculos. Os alunos são divididos em três grupos, na frente de cada grupo o professor coloca um obstáculo a uma dada altura do chão. O objetivo da atividade é que o aluno corra até o obstáculo, salte por ele e retorne para o seu grupo. Ao chegar no grupo, outro aluno da mesma equipe deve sair e fazer a mesma atividade.
  2. Corridas de revezamento. As equipes são distribuídas em cores, cada equipe deve ter um bastão para fazer a passagem do mesmo. Ao sinal do professor, um aluno deve sair correndo, realizar uma volta inteira na quadra e, no espaço determinado, deve fazer a passagem do bastão para o outro companheiro de equipe. Este aluno, por sua vez, deve fazer a mesma atividade, até que todos a tenham realizado. Vencerá a equipe em que todos os alunos terminarem o percurso em menos tempo.
  3. Corrida maluca. Pedir para que os alunos possam criar uma atividade que envolva tanto a corrida de obstáculo quanto a corrida de revezamento.
4º Catarse. Momento de uma avaliação da atividade. Nesta etapa o professor deve tentar captar a aprendizagem, bem como as dificuldades e limites encontrados na aula. Perguntas que podem ser realizadas:
  1. Agora, o que vocês entendem que seja o atletismo?
  2. Quais foram os tipos de corridas que fizemos?
  3. Em qual corrida vocês sentiram maior cansaço e maior dificuldade?
    Com essa proposta de organização de conhecimento para a aula de Educação Física, espera-se poder superar o tecnicismo que ate os dias atuais ainda está presente na Educação Física, ao valorizar o conhecimento que o aluno já possui e também diversificar as práticas esportivas realizadas dentro da escola.
Considerações finais
    A ação pedagógica em Educação Física precisa valorizar o ser humano em sua complexidade, ao buscar proporcionar para o aluno a ampliação de seus conhecimentos sobre as práticas corporais, esportivas e do lazer.
    É fundamental mostrar ao educando que a Educação Física dispõe de uma série de conteúdos que podem ser trabalhados ao longo de sua vida escolar. Praticar, ampliar e vivenciar a Educação Física pode contribuir para a formação de um ser humano consciente, crítico e com autonomia para a vivência e fruição de sua cultura corporal.
    Esse texto não procura ser uma receita, tão pouco uma imposição do que o professor deve fazer, mas trata-se de uma tentativa de contribuição para a sistematização do conhecimento da Educação Física para as Séries Finais do Ensino Fundamental.
    Portanto, acreditar na Educação Física escolar é fundamental para poder modificá-la.
Referências
  • ASSIS, Sávio. Reinventando o Esporte. São Paulo: Autores Associados, 2010.
  • COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino da educação física. São Paulo/SP: Cortez, 1992.
  • DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005
  • Foucault, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, Vozes, 1987.
  • KUNZ, Elenor. Educação Física: ensino e mudanças. Ijuí: Unijuí Ed. 1991.
  • ______. Transformação didático-pedagógica do esporte. Ijuí: Unijuí Ed. 1994.
  • KUNZ, Elenor; SANTOS, Luciana Maria Espíndola. Se-movimentar: uma concepção fenomenológica do Movimento Humano. In: HERMINA, Fernando (Org.) Educação Física: conhecimento e saber escolar. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2009.
  • MOREIRA, Wagner Wey. A ação do professor de educação física na escola: uma abordagem fenomenológica. 1990. 173 f. Tese (Doutorado em Educação)- Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1990
  • MOREIRA, Wagner Wey; SIMÕES, Regina. Aulas de Educação Física no Ensino Médio. Campinas, SP: Papirus, 2010

terça-feira, 9 de junho de 2015

OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO

Os quatro pilares da Educação são conceitos de fundamento da educação baseado no Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors. O ensino, tal como o conhecemos, debruça-se essencialmente sobre o domínio do aprender a conhecer e, em menor escala, do aprender a fazer. Estas aprendizagens, direcionadas para a aquisição de instrumentos de compreensão, raciocínio e execução, não podem ser consideradas completas sem os outros domínios da aprendizagem, muito mais complicados de explorar, devido ao seu carácter subjectivo e dependente da própria entidade educadora. Palavras-chave: Aprender a Conhecer; Fazer; Viver; Ser.
INTRODUÇÃO
A educação deve transmitir, de fato, de forma maciça e eficaz, cada vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, adaptados à civilização cognitiva, pois são as bases das competências do futuro. Simultaneamente, compete-lhe encontrar e assinalar as referências que impeçam as pessoas de ficarem submergidas nas ondas de informações, mais ou menos efêmeras, que invadem os espaços públicos e privados e as levem a orientar-se para projetos de desenvolvimento individuais e coletivos. À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permita navegar através dele.
Nessa visão prospectiva, uma resposta puramente quantitativa à necessidade insaciável a educação - uma bagagem escolar cada vez mais pesada - já não é possível nem mesmo adequada. Não basta, de fato, que cada um acumule no começo da vida uma determinada quantidade de conhecimentos de que possa abastecer-se indefinidamente. É, antes, necessário estar à altura de aproveitar e explorar, do começo ao fim da vida, todas as ocasiões de atualizar, aprofundar e enriquecer estes primeiros conhecimentos, e de se adaptar a um mundo de mudanças.
____________________
1 - Trabalho apresentado ao Curso de Pedagogia da UNIASSELVI, na disciplina de Didática e Avaliação no ano de 2008.
2- Graduado em Educação Física pela Universidade do Sul de Santa Catarina no ano de 2009.
Para poder dar resposta ao conjunto das suas missões, a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais que, ao longo de toda vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. É claro que estas quatro vias do saber constituem apenas uma, dado que existem entre elas múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta.
Mas, em regra geral, o ensino formal orienta-se, essencialmente, se não exclusivamente, para o aprender a conhecer e, em menor escala, para o aprender a fazer. As duas outras aprendizagens dependem , a maior parte das vezes, de circunstâncias aleatórias quando não são tidas, de algum modo, como prolongamento natural das duas primeiras. Ora, a Comissão pensa que cada um dos "quatro pilares do conhecimento" deve ser objeto de atenção igual por parte do ensino estruturado, a fim de que a educação apareça como uma experiência global a levar a cabo ao longo de toda a vida, no plano cognitivo no prático, para o indivíduo enquanto pessoa e membro da sociedade.
Desde o início de seus trabalhos que os membros da Comissão compreenderam que seria indispensável, para enfrentar os desafios do próximo século, assinalar novos objetivos à educação e, portanto, mudar a idéia que se tem da sua utilidade. Uma nova concepção ampliada de educação devia fazer com que todos pudessem descobrir, reanimar e fortalecer o seu potencial criativo - revelar o tesouro escondido em cada um de nós. Isto supõe que se ultrapasse a visão puramente instrumental da educação, considerada como a via obrigatória para obter certos resultados (saber fazer, aquisição de capacidades diversas, fins de ordens econômicas), e se passe a considerá-la em toda sua plenitude: realização da pessoa que, na sua totalidade aprende a ser.
"À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permite navegar através dele". (DELORS, 89)
APRENDER A CONHECER
Este tipo de aprendizagem que visa nem tanto a aquisição de um repertório de saberes codificados, mas antes o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento pode ser considerado, simultaneamente, como um meio e uma finalidade da vida humana. Meio, porque se pretende que cada um aprenda a compreender o mundo que o rodeia, pelo menos na medida em que isso lhe é necessário para viver dignamente, para desenvolver as suas capacidades profissionais, para comunicar. Finalidade, porque seu fundamento é o prazer de compreender, de conhecer, de descobrir. Apesar dos estudos sem utilidade imediata estarem desaparecendo, tal a importância dada atualmente aos saberes utilitários, a tendência para prolongar a escolaridade e o tempo livre deveria levar os adultos a apreciar cada vez mais , as alegrias do conhecimento e da pesquisa individual. O aumento dos saberes, que permite compreender melhor o ambiente sob os seus diversos aspectos, favorece o despertar da curiosidade intelectual, estimula o sentido crítico e permite compreender o real, mediante a aquisição de autonomia na capacidade de discernir. Deste ponto de vista, há que repeti-lo, é essencial que cada criança, esteja onde estiver, possa ter acesso, de forma adequada, às metodologias científicas de modo a tornar-se para toda a vida "amiga da ciência". Em nível do ensino secundário e superior, a formação inicial deve fornecer a todos os alunos instrumentos, conceitos e referências resultantes dos avanços das ciências e dos paradigmas do nosso tempo.
Contudo, como o conhecimento é múltiplo e evolui infinitamente, torna-se cada vez mais inútil tentar conhecer tudo e, depois do ensino básico, a omnidisciplinaridade é um engodo. A especialização, porém, mesmo para futuros pesquisadores, não deve excluir a cultura geral. "Um espírito verdadeiramente formado, hoje em dia tem necessidade de uma cultura geral vasta e da possibilidade de trabalhar em profundidade determinado número de assuntos. Deve-se, do princípio ao fim do ensino, cultivar simultaneamente, estas duas tendências". A cultura geral, enquanto abertura de outras linguagens e outros conhecimentos permite, antes de tudo, comunicar-se. Fechado na sua própria ciência, o especialista corre o risco de se desinteressar pelo o que fazem os outros. Sentirá dificuldade em cooperar, quaisquer que sejam as circunstâncias. Por outro lado, a formação cultural, cimento das sociedades no tempo e no espaço, implica a abertura a outros campos do conhecimento, e deste modo, podem operar-se fecundas sinergias entre as disciplinas. Especialmente em matéria de pesquisa, determinados avanços do conhecimento dão-se nos pontos de interseção das diversas áreas disciplinares.
Aprender para conhecer supõe, antes de tudo, aprender a aprender, exercitando a atenção, a memória e o pensamento. Desde a infância, sobretudo nas sociedades dominadas pela imagem televisiva, o jovem deve aprender a prestar atenção às coisas e às pessoas. A sucessão muito rápida de informações mediatizadas, o "zapping" tão freqüente, prejudicam de fato o processo de descoberta, que implica duração e aprofundamento de apreensão. Esta aprendizagem da atenção pode revestir formas diversas e tirar partido de várias ocasiões da vida (jogos, estágios em empresas, viagens, trabalhos práticos de ciências...).
Por outro lado o exercício da memória é um antídoto necessário contra a submersão pelas informações instantâneas difundidas pelos meios de comunicação social. Seria perigoso imaginar que a memória pode vir a tornar-se inútil, devido a enorme capacidade de armazenamento e difusão das informações de que dispomos daqui em diante. É preciso ser, sem dúvida, seletivo na escolha dos dados a aprender "de cor" mas, propriamente, a faculdade humana de memorização associativa, que não é redutível a um automatismo, deve ser cultivada cuidadosamente. Todos os especialistas concordam em que a memória deve ser treinada desde a infância, e que é errado suprimir da prática escolar certos exercícios tradicionais, considerados como fastidiosos.
Finalmente, o exercício do pensamento ao qual a criança é iniciada, em primeiro lugar, pelos pais e depois pelos professores, deve comportar avanços e recuos entre o concreto e o abstrato. Também se devem combinar, tanto no ensino como na pesquisa dois métodos apresentados, muitas vezes, como antagônicos: o método dedutivo por um lado e o indutivo por outro. De acordo com as disciplinas ensinadas, um pode ser mais pertinente do que o outro, mas na maior parte das vezes o encadeamento do pensamento necessita da combinação dos dois.
O processo de aprendizagem do conhecimento nunca está acabado, e pode enriquecer-se com qualquer experiência. Neste sentido, liga-se cada vez mais à experiência do trabalho, à medida que este se torna menos rotineiro. A educação primária pode ser considerada bem sucedida se conseguir transmitir às pessoas o impulso e as bases que façam com que continuem a aprender ao longo de toda a vida, no trabalho, mas também fora dele.
APRENDER A FAZER
Aprender a conhecer e aprender a fazer são, em larga medida, indissociáveis. Mas a segunda aprendizagem esta mais estreitamente ligada à questão da formação profissional: como ensinar o aluno a pôr em pratica os seus conhecimentos e, também, como adaptar a educação ao trabalho futuro quando não se pode prever qual será a sua evolução? É a esta última questão que a Comissão tentará dar resposta mais particularmente.
Convém distinguir, a este propósito, o caso das economias industriais onde domina, o trabalho assalariado do das outras economias onde domina, ainda em grande escala, o trabalho independente ou informal. De fato, nas sociedades assalariadas que se desenvolveram ao longo do século XX, a partir do modelo industrial, a substituição do trabalho humano pelas máquinas tornou-se cada vez mais imaterial e acentuou o caráter cognitivo das tarefas, mesmo nas indústria, assim como a importância dos serviços na atividade econômica. O futuro dessas economias depende, aliás, da sua capacidade de transformar o progresso dos conhecimentos em inovações geradoras de novas empresas e de novos empregos. Aprender a fazer não pode, pois, continuar a ter o significado simples de preparar alguém para uma tarefa uma tarefa material bem determinada, para fazê-lo fabricar no fabrico de alguma coisa. Como conseqüência, as aprendizagens devem evoluir e não podem mais serem consideradas como simples transmissão de práticas mais ou menos rotineiras, embora estas continuem a ter um valor formativo que não é de desprezar.
Da noção de qualificação à noção de competência
Na indústria especialmente para operadores e os técnicos, o domínio do cognitivo e do informativo nos sistemas de produção, torna um pouco obsoleta a noção de qualificação profissional e leva a que se dê muita importância à competência pessoal. O progresso técnico modifica, inevitavelmente, as qualificações exigidas pelos novos processos de produção. As tarefas puramente físicas são substituídas por tarefas de produção mais intelectuais, mais mentais, como o comando de máquinas, a sua manutenção e vigilância, ou por tarefas de concepção, de estudo, de organização à medida que as máquinas se tornam, também, mais "inteligentes" e que trabalho se "desmaterializa".
Este aumento de exigências de matéria de qualificação, em todos os níveis, têm varias origens. No que se diz respeito ao pessoal de execução, a justa posição de trabalhos prescritos e parcelados deu lugar à organização em "coletivos de trabalho" ou "grupos de projeto", a exemplo do que se faz nas empresas japonesas: uma espécie de taylorismo ao contrário. Por outro lado a indiferenciação entre trabalhadores sucede a personalização das tarefas. Os empregadores substituem, cada vez mais, a exigência de uma qualificação ainda muito ligada, de seu ver, à idéia de competência material, pela exigência de uma competência que se apresenta como uma espécie de coquetel individual, combinando a qualificação, em sentido estrito, adquirida pela formação técnica e profissional, o comportamento social, a aptidão para o trabalho em equipe,a capacidade de iniciativa, o gosto pelo risco.
Se juntarmos a essas novas exigências a busca de um compromisso pessoal do trabalhador, considerando como agente de mudança, torna-se evidente que as qualidades muito subjetivas, inatas ou adquiridas, muitas vezes denominadas "saber ser" pelos dirigentes empresariais, se juntam ao saber e ao saber fazer para compor a competência exigida - o que mostra bem a ligação que a educação deve manter, como aliás sublinhou a Comissão, entre os diversos aspectos da aprendizagem. Qualidades como a capacidade de comunicar, de trabalhar com os outros, de gerir e resolver conflitos, tornam-se cada vez mais importantes. E esta tendência torna-se ainda mais forte, devido ao desenvolvimento do setor de serviços.
A "desmaterialização" do trabalho e a importância dos serviços entre as atividades assalariadas
As conseqüências sobre a aprendizagem da "desmaterialização" das economias avançadas são particularmente impressionantes se se observar a evolução quantitativa e qualitativa dos serviços. Este setor, muito diversificado, define-se sobre tudo pela negativa, não são nem industriais nem agrícola e que, apesar da sua diversidade, têm em comum o fato de não produzirem um bem material.
Muitos serviços definem-se, sobretudo, em função da relação interpessoal a que dão origem. Podem encontrar-se exemplos disso tanto no setor mercantil que prolifera, alimentando-se da complexidade crescente das economias (especialidades muito variadas, serviços de acompanhamento e de aconselhamento tecnológico, serviços financeiros, contabilísticos ou de gestão), como no setor não comercial mais tradicional (serviços sociais, ensino, saúde, etc.). Em ambos os casos, as atividades de informação e comunicação são primordiais; dá-se prioridade à coleta e tratamento personalizado de informações específicas para determinado projeto. Neste tipo de serviços, a qualidade de relação entre prestador e usuário depende, também muito, deste último.
Compreende-se, pois, que o trabalho em questão já não possa ser feito da mesma maneira que quando se trata de trabalhar a terra ou de fabricar um tecido. A relação com a matéria e a técnica deve ser completada com aptidão pra as relações interpessoais. O desenvolvimento dos serviços exige, pois, cultivar qualidades humanas que a formações tradicionais não transmitem, necessariamente e que correspondem à capacidade de estabelecer relações estáveis e eficazes entre as pessoas.
Finalmente é provável que nas organizações ultratecnicistas do futuro os déficits relacionais possam criar graves disfunções exigindo qualificações de novo tipo, com base mais comportamental do que intelectual. O que pode ser uma oportunidade para os não diplomados, ou com deficiente preparação em nível superior. A intuição, o jeito, a capacidade de julgar, a capacidade de manter unida uma equipe não são de fato qualidades, necessariamente, reservadas as pessoas com altos estudos. Como e onde ensinar estas qualidades mais ou menos inatas? Não se podem deduzir simplesmente os conteúdos de formação, das capacidades ou aptidões requeridas. O mesmo problema põe-se, também, quanto à formação profissional, nos países em desenvolvimento.
O trabalho na economia formal
Nas economias em desenvolvimento, onde a atividade assalariada não é dominante, a natureza do trabalho é muito diferente. Em muitos países da África subsaariana e alguns países da América Latina e da Ásia, efetivamente, só uma pequena parte da população tem emprego e recebe salário, pois a grande maioria participa na economia nacional de subsistência. Não existe, rigorosamente falando, referencial de emprego; as competências são, muitas vezes, de tipo tradicional. Por outro lado, a aprendizagem não se destina, apenas, a um só trabalho mas tem como objetivo mais amplo preparar para uma participação formal ou informal no desenvolvimento. Trata-se, freqüentemente, mais de uma qualificação social do que uma qualificação profissional.
Noutros países em desenvolvimento existe, ao lado da agricultura e de um reduzido setor formal, um setor de economia ao mesmo tempo moderno e informal, por vezes bastante dinâmico, à base de artesanato, de comercio e de finanças que revela a existência de uma capacidade empreendedora bem adaptada às condições locais.
Em ambos os casos, após numerosas pesquisas levadas a cabo em países em desenvolvimento, apercebemos-nos que encaram o futuro como estando estreitamente ligado à aquisição da cultura científica que lhes dará acesso à tecnologia moderna, sem negligenciar com isso as capacidades específicas de inovação e criação ligadas ao contexto local.
Existe uma questão comum aos países desenvolvidos e em desenvolvimento: como aprender a comportar-se, eficazmente, numa situação de incerteza, como participar na criação do futuro?
Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros
Sem dúvida, esta aprendizagem representa, hoje em dia, um dos maiores desafios da educação. O mundo atual é, muitas vezes, um mundo de violência que se opõe à esperança posta por alguns no progresso da humanidade. A história humana sempre foi conflituosa, mas há elementos novos que acentuam o problema e, especialmente, o extraordinário potencial de autodestruição criado pela humanidade no decorrer do século XX. A opinião pública, através dos meios de comunicação social, torna-se observadora impotente e até refém dos que criam ou mantém conflitos. Até agora, a educação não pôde fazer grande coisa para modificar esta situação real.
Poderemos conceber uma educação capaz de evitar os conflitos, ou de os resolver de maneira pacífica, desenvolvendo o conhecimento dos outros, das suas culturas, da sua espiritualidade?
É de louvar a idéia de ensinar a não-violência na escola, mesmo que apenas constitua um instrumento, entre outros, para lutar contra os preconceitos geradores de conflitos. A tarefa é árdua porque, muito naturalmente, os seres humanos têm tendência a supervalorizar as suas qualidades e as do grupo que a pertencem,e a alimentar preconceitos desfavoráveis em relação aos outros. Por outro lado, o clima geral de concorrência que caracteriza, atualmente, a atividade econômica no interior de cada país, e sobretudo em nível internacional, têm a tendência de dar prioridade ao espírito de competição e ao sucesso individual. De fato, esta competição resulta, atualmente em uma guerra econômica implacável e numa tensão entre os mais favorecidos e os pobres, que divide as nações do mundo e exacerba as rivalidades históricas. É de lamentar que a educação contribua, por vezes, para alimentar este clima, devido a uma má interpretação da idéia de emulação.
Que fazer para mudar a situação? A experiência mostra que, para reduzir o risco, não basta pôr em contato e em comunicação membros de grupos de diferentes (através de escolas comuns a várias etnias ou religiões, por exemplo). Se, no seu espaço comum, estes diferentes grupos já entram em competição ou se o seu estatuto é desigual, um contato deste gênero pode, pelo contrário, agravar ainda mais as tensões latentes e degenerar em conflitos. Pelo contrário, se este contato se fizer num contexto igualitário, e se existirem objetivos e projetos em comuns, os preconceitos e a hostilidade latente podem desaparecer e dar lugar a uma cooperação mais serena e até amizade.
Parece, pois, que a educação deve utilizar duas vias complementares.Num primeiro nível, a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível, e ao longo de toda vida, a participação em projetos comuns, que parece ser um método eficaz para evitar ou resolver conflitos latentes.
A descoberta do outro
A educação tem por missão, por um lado, transmitir conhecimentos sobre a diversidade da espécie humana e, por outro, levar as pessoas a tomar consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os seres humanos do planeta. Desde tenra idade a escola deve, pois, aproveitar todas as ocasiões para esta dupla aprendizagem. Algumas disciplinas estão mais adaptadas a este fim, em particular a geografia humana a partir do ensino básico e as línguas e literaturas estrangeiras mais tarde.
Passando à descoberta do outro, necessariamente, pela descoberta de si mesmo, e por dar à criança e ao adolescente uma visão ajustada do mundo, a educação, seja ela dada pela família, pela comunidade ou pela a escola, deve antes de mais ajudá-los a descobrir a si mesmos. Só então poderão, verdadeiramente, pôr-se no lugar dos outros e compreender as suas reações. Desenvolver esta atitude de empatia, na escola é muito útil para os comportamentos sociais ao longo de toda a vida. Ensinando, por exemplo, aos jovens a adotar a perspectiva de outros grupos étnicos ou religiosos podem evitar incompreensões geradoras de ódio e violência entre adultos. Assim, o ensino das histórias das religiões ou dos costumes pode servir de referência útil para futuros comportamentos.
Por fim os métodos de estudo não devem ir contra este reconhecimento do outro. Os professores que, por dogmatismo, matam a curiosidade ou o espírito crítico dos seus alunos, em vez de o desenvolver, podem ser mais prejudiciais do que úteis. Esquecendo que funcionam como modelos, como esta sua atitude, arriscam-se a enfraquecer por toda vida nos alunos a capacidade de abertura à alteridade e de enfrentar as inevitáveis tensões entre pessoas, grupos e nações. O confronto através do diálogo e da troca de argumentos é um dos instrumentos indispensáveis à educação do século XXI.
Tender para objetivos comuns
Quando se trabalha em conjunto sobre projetos motivadores e fora do habitual, as diferenças e até os conflitos inter-individuais tendem a reduzir-se, chegando a desaparecer em alguns casos. Uma nova forma de identificação nasce destes projetos que fazem com que ultrapassem as rotinas individuais, que valorizam aquilo que é comum e não as diferenças. Graças a prática do desporto, por exemplo, quantas tensões entre classes sociais ou nacionalidades se transformaram, afinal, em solidariedade através de experiência e do prazer do esforço comum!
A educação formal deve, pois, reservar tempo e ocasiões suficientes em seus programas para iniciar os jovens em projetos de cooperação, logo desde da infância, no campo das atividades desportivas e culturais, evidentemente, mas também estimulando a sua participação em atividades sociais: renovação de bairros, ajuda aos mais desfavorecidos, ações humanitárias, serviços de solidariedade entre gerações... As outras organizações educativas e associações devem, neste campo, continuar o trabalho iniciado pela escola. Por outro lado, na prática letiva diária, a participação de professores e alunos em projetos comuns podem dar origem à aprendizagem de métodos de resolução de conflitos e constituir uma referência para a vida futura dos alunos, enriquecendo a relação professor/alunos.
Aprender a ser
Desde a sua primeira reunião, a Comissão reafirmou, energicamente, um princípio fundamental: a educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa - espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade. Todo ser humano deve ser preparado, especialmente graças à educação que recebe na juventude, para elaborar pensamentos autônomos e críticos e para formular os seus próprios juízos de valor, de modo a poder decidir, por si mesmo, como agir nas diferentes circunstâncias da vida.
O relatório Aprender a ser (1972) exprimia, no preâmbulo, o temor da desumanização do mundo relacionada com a evolução técnica[4]. A evolução das sociedades desde então e, sobretudo, o enorme desenvolvimento do poder mediático veio acentuar este temor e tornar mais legítima ainda a injunção que lhe serve de fundamento. É possível que no século XXI estes fenômenos adquiram ainda mais amplitude. Mais do que preparar as crianças para uma dada sociedade, o problema será, então, fornecer-lhes constantemente forças e referências intelectuais que lhes permitam compreender o mundo que as rodeia e comportar-se nele como autores responsáveis e justos. Mais do que nunca a educação parece ter, como papel essencial, conferir a todos seres humanos a liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação de que necessitam para desenvolver seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos do seu próprio destino.
Este imperativo não é apenas a natureza individualista: a experiência recente mostra que o que poderia aparecer, somente, como uma forma de defesa do indivíduo perante um sistema alienante ou tido como hostil, é também por vezes, a melhor oportunidade de progresso para as sociedades. A diversidade das personalidades, a autonomia e o espírito de iniciativa, até mesmo o gosto pela provocação, são os suportes da criatividade e da inovação. Para reduzir a violência ou lutar contra os diferentes flagelos que afetam a sociedade os métodos inéditos retirados de experiências no terreno já deram prova da sua eficácia.
Num mundo em mudança, de que um dos principais motores parece ser a inovação tanto social como econômica, deve ser dada a importância especial a imaginação e à criatividade; claras manifestações da liberdade humana elas podem vir a ser ameaçadas por uma certa estandardização dos comportamentos individuais. O século XXI necessita desta diversidade de talentos e de personalidades, mas ainda de pessoas excepcionais, igualmente essenciais em qualquer civilização. Convém, pois, oferecer às crianças e aos jovens todas as ocasiões possíveis de descoberta e experimentação - estética, artística, desportiva, científica, cultural e social -, que venham completar a apresentação atraente daquilo que, nestes domínios, foram capazes de criar as gerações que os procederam ou suas ontemporâneas. Na escola, a arte e a poesia deveriam ocupar um lugar mais importante do que aquele que lhes é concedido, em muitos países, por um ensino tornado mais utilitarista do que cultural. A preocupação em desenvolver a imaginação e a criatividade deveria, também, revalorizar a cultura oral e os conhecimentos retirados da experiência da criança ou do adulto.
Assim a Comissão adere plenamente ao postulado do relatório Aprender a ser. "O desenvolvimento tem por objeto a realização completa do homem, em volta a sua riqueza e na complexidade das suas expressões e dos seus compromissos: indivíduo, membro de uma família e de uma coletividade, cidadão e produtor, inventor de técnicas e criador de sonhos". Este desenvolvimento do ser humano, que se desenrola desde o nascimento até à morte, é um processo dialético que começa pelo conhecimento de si mesmo para se abrir, em seguida, à relação com o outro. Neste sentido, a educação é antes de mais nada uma viagem interior, cujas as etapas correspondem às da maturação contínua da personalidade. Na hipótese de uma experiência profissional de sucesso, a educação como meio para tal realização é, ao mesmo tempo, um processo individualizado e uma construção social interativa.
É escusado dizer que os quatro pilares da educação, acabados de escrever, não se apóiam, exclusivamente, numa fase da vida ou num único lugar. Como se verá no capítulo seguinte, os tempos e as áreas da educação devem ser repensados, completar-se e interpenetrar-se de maneira a que cada pessoa, ao longo de toda a sua vida, possa tirar o melhor partido de um ambiente educativo em constante ampliação.
CONCLUSÃO
Segundo Delors, a prática pedagógica deve preocupar-se em desenvolver quatro aprendizagens fundamentais, que serão para cada indivíduo os pilares do conhecimento: aprender a conhecer indica o interesse, a abertura para o conhecimento, que verdadeiramente liberta da ignorância; aprender a fazer mostra a coragem de executar, de correr riscos, de errar mesmo na busca de acertar; aprender a conviver traz o desafio da convivência que apresenta o respeito a todos e o exercício de fraternidade como caminho do entendimento; e, finalmente, aprender a ser, que, talvez, seja o mais importante por explicitar o papel do cidadão e o objetivo de viver.
Os pilares são quatro, e os saberes e competências a se adquirir são apresentados, aparentemente, divididos. Essas quatro vias não podem, no entanto, dissociar-se por estarem imbricadas, constituindo interação com o fim único de uma formação holística do indivíduo.
Jacques Delors (1998) aponta como principal conseqüência da sociedade do conhecimento a necessidade de uma aprendizagem ao longo de toda vida, fundamentada em quatro pilares, que são, concomitantemente, do conhecimento e da formação continuada.
Com base nessa visão dos quatro pilares do conhecimento, pode-se prever grandes conseqüências na educação. O ensino-aprendizagem voltado apenas para a absorção de conhecimento e que tem sido objeto de preocupação constante de quem ensina deverá dar lugar ao ensinar a pensar, saber comunicar-se e pesquisar, ter raciocínio lógico, fazer sínteses e elaborações teóricas, ser independente e autônomo; enfim, ser socialmente competente.
REFERÊNCIAS
FAURE, Edgar e outros. Apprendre à être. Relatório da Comissão Internacional sobre o Desenvolvimento da Educação. UNESCO. Paris, Fayard, 1972.
DELORS, Jacques (Coord.). Os quatro pilares da educação. In: Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortezo. p. 89-102.
FREIRE, Paulo; FAUNDEZ, Antonio. Por uma pedagogia da pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
 
Avalie este artigo: 
4 voto(s)


Leia mais em: http://www.webartigos.com/artigos/os-quatro-pilares-da-educacao/18625/#ixzz3ccgWO8cr